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Loja de tecidos e linhas mantém atividade há 101 anos em Acopiara

Por Redaçâo em 09/02/2021 às 19:54:44
Legenda: Os mais variados tecidos e linhas são armazenados em prateleiras e dispostos pela loja Foto: Wandenberg Belém

Legenda: Os mais variados tecidos e linhas são armazenados em prateleiras e dispostos pela loja Foto: Wandenberg Belém

"É muito importante. Ela já é muito velha e tem muitos anos. Eu com 8 anos já conhecia isso aqui". A velha loja de tecidos e linhas em Acopiara, no Centro-Sul cearense, faz parte da vida da aposentada Rita Daniel. Quando criança, ela frequentava a loja junto com a mãe. Cresceu, se tornou cliente fiel e, hoje, aos 75 anos de idade, sempre que sai do sítio Malhada para fazer compras na cidade, visita o comércio, que virou uma "casa de amigos", um ponto de referência. "Ainda continuo comprando tecido para fazer lençol e roupas, que eu mesma costuro. Enquanto eu for viva eu não saio daqui", afirmou.

Resistência

A loja de tecidos e linhas é um lugar onde se viaja ao passado. Ela resistiu ao tempo, à modernidade e à avalanche de estabelecimentos de confecções populares. Há 102 anos mantém a mesma fachada, sem placa e sem nome, mas continua com clientela cativa que se renovou nos descendentes dos primeiros fregueses. "Nunca faltou. Os clientes de papai já morreram muitos, mas ficaram as famílias", ressalta Helenita Gurgel, proprietária da loja.

São poucas as empresas - em particular aquelas de gestão familiar - que resistem tanto tempo em atividade. Visitar a loja, hoje administrada por Helenita Gurgel, terceira geração da tradicional família local de comerciantes, é voltar à primeira metade do século XX.

Atrás do balcão de madeira de pinho, Helenita, 69 anos, recebe os clientes com muita atenção. Ela lembra que começou indo para loja ainda criança, ajudar aos pais.

"Meu pai vinha de mãos dadas com minha mãe e eu junto", recordou. "As pessoas vinham dos sítios e compravam tecidos para fazer roupas e pagavam com a safra do algodão".

Naquela época, o pai de Helenita comandava os negócios. Ele vendia em maio para receber em setembro. O crediário seguia o calendário da colheita que movimentava o comércio. Era a época de fartura do "ouro branco".

Original

Localizado na rua Dr. Tibúrcio Soares, o prédio mantém a mesma fachada, com uma porta e dois janelões na frente. Na lateral, são três portas viradas para a galeria José Francisco da Silva, nome do patriarca da família, fundador da loja.

O imóvel mantém traços originais e é referência no comércio local, não só pelo tempo de portas abertas mas também pela arquitetura que exibe. O teto foi construído com troncos de aroeiras talhados no machado. Os caibros, ripas e telhas são datados da mesma época da fundação, outubro de 1918.

Nesses 101 anos de funcionamento, os móveis também são os mesmos. Tudo mantido com muito zelo. O grande balcão serve de bancada para medir e cortar os tecidos.

As prateleiras com portas de vidro guardam parte das mercadorias. No salão da loja tem bancadas com os mais variados tecidos. Já o caixa preserva a grade de madeira torneada e um antigo birô.

O velho cofre de ferro não guarda mais dinheiro, serve de decoração e recordação, símbolo da economia pujante dos tempos áureos da cultura do algodão.

Herança

Após a morte do patriarca da família e fundador da loja, o negócio passou a ser tocado por José Francisco da Silva Filho, que desde novo trabalhava com o pai e, anos depois, pela neta, Helenita Gurgel, que tem uma vida dedicada à atividade comercial.

A comerciante conta que compra os tecidos de Fortaleza e que, apesar da infinidade de lojas que vendem roupas feitas, muitas pessoas ainda preferem comprar o tecido e fazer ou encomendar a costura. No cenário atual, de pandemia e comércio virtual, Helenita Gurgel comemora o fato de ter muitos clientes.

"Eu tenho bastante freguês. É muito difícil uma pessoa sair daqui sem levar nada", relata.

A variedade de tecidos, a qualidade e o atendimento diferenciado, atraem e fidelizam a clientela, formada, em sua maioria, por moradores da zona rural.

Pandemia

Durante o período mais crítico da pandemia, a loja passou mais de sete meses fechada. A reabertura ainda sente os impactos da crise gerada pelo novo coronavírus. Algumas mercadorias continuam indisponíveis devido a problemas com a produção dos fornecedores.

Por outro lado, reabrir as portas representa bem mais do que vender. A comerciante sentia falta de rever as pessoas, os amigos e de exercer a profissão herdada dos antepassados. O comando da velha loja é mais que um trabalho, é uma paixão. "Eu me sinto orgulhosa de ter esse prédio aqui. Me sinto feliz. Se eu pudesse eu morava até aqui", diz emocionada.

Uma curiosidade é que no estabelecimento nunca contou com rede de fornecimento de água ou energia elétrica. "No tempo de vovô não existia. Papai também quando trabalhava aqui não colocou e eu continuei do mesmo jeito", conta. A loja fecha às 17 horas, ainda com luz do dia.

História

A história do estabelecimento se confunde com a da cidade. Acopiara emancipou-se de Iguatu e foi denominada de Lajes e Afonso Pena. No dia 28 de setembro deste ano completará 100 anos de fundação, quase dois a menos que a loja que completa 102 anos em setembro próximo. "Essa loja é uma memória viva do nosso comércio antigo", afirmou o diretor da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), José Deocleciano Bezerra.

João Bertolino é vendedor em uma banquinha de produtos de variedades ao lado da loja e trabalha no Centro comercial há 40 anos. Ele lembra que o local sempre foi ponto de encontros, de apoio para clientes e amigos. "As pessoas vinham dos sítios e guardavam as coisas, tinham a loja como ponto de apoio e o interessante é que tudo está como antigamente".

Helenita Gurgel pretende manter tudo à moda antiga. "Com entusiasmo e dedicação vou trabalhar até quando puder, quando Deus quiser. Aqui é minha vida".

Fonte: Diário do Nordeste

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